O gênio e o sacrilégio (frevel) dionisíaco
DOI:
https://doi.org/10.20911/25260782v11n3p9/2026Abstract
Trata-se, aqui, de analisar a concepção nietzscheana do gênio à luz do dionisíaco, destacando seu papel na formação cultural e na transgressão da ordem estabelecida. Em contraste com a visão contemplativa do gênio em Schopenhauer, Nietzsche propõe um gênio ativo, agente de criação estética e unificação estilística da cultura. O gênio, a partir dos textos da década de 1870, surge como figura central na gênese da cultura, responsável por dar forma, valor e sentido à existência, mesmo na ausência de fundamentos metafísicos e, sobretudo, diante da desagregação cultural moderna. Associado à pouco estudada ideia de sacrilégio (Frevel), tal como aparece em O Nascimento da Tragédia, o gênio se realiza ao romper com a normatividade social, moral e natural, num gesto eminentemente dionisíaco. Essa perspectiva dissolve a noção de “progresso” e introduz uma filosofia da cultura marcada pelo antagonismo entre criação e destruição. Analisa-se, igualmente, a “história monumentalista” enquanto instrumento poético-simbólico do gênio; Nietzsche reconhece a ilusão inerente a esse gesto, mas insiste em sua necessidade vital. A figura do filósofo passa, assim, a coincidir com a do artista e legislador, cuja função é gerar mundos simbólicos capazes de sustentar a vida. A concepção de gênio será posteriormente criticada de modo severo, sob a ótica de uma crítica antimetafísica, mas o sacrilégio se manterá como impulso fundamental do filosofar nietzscheano.
Palavras-chave: Gênio; Dionisíaco; Sacrilégio (Frevel); Estilo cultural.